Ilustração: Eva Uviedo

O jovem subestima o controle sobre o controle. Tanto da própria vida quanto o controle que alguém pode vir a exercer sobre ele. No meu caso, acreditava ter casado com Scott para sermos, juntos, livres. Ah, que estúpido engano. Deixei de ser livre para ser escrava dos nossos caprichos, nossas bebedeiras, nosso hedonismo. Escrevíamos os dois, em nossas vidas de excesso, e eu só me preocupava em manter nossas vidas cheias; cheias de amor, de aventura, de gozo, de criatividade, ah, nossas vidas e copos cheios.

Mal sabia eu que logo o que se encheria seria o meu saco.

Ele…


Ilustração: Eva Uviedo

Quando falo de minha memória, eu me refiro à Zelda morta. Aquela cuja morte precisei forjar e sumir com o corpo entre tantos outros corpos de mulheres irreconhecíveis carbonizadas por um incêndio que eu até hoje não sei se foi criminoso, mas sei que foi minha chance. A memória que carrego comigo segue vívida e vasta como a vida que teria pela frente.

Pois é, minha memória que me faz pensar como foi que eu me meti naquilo. Como disse um pensador contemporâneo, não era amor, era cilada. E esse tipo de cilada a gente só percebe quando está longe…


Ilustração: Eva Uviedo

Sempre fui questionadora e nunca me conformei com o lugar a mim reservado, de silêncio, obediência, submissão. Isso não me foi ensinado, mas eu via os meninos sendo livres e achava que queria ser um deles, correndo, me sujando, rolando, gritando. Algumas vezes fugi das tarefas que me diziam ser femininas para brincar com eles que, no começo, estranhavam, mas depois acabavam me acolhendo. Minha mãe e minha avó colocavam as mãos na cabeça e iam me buscar. Era sempre a mesma história:

— Menina não pode!

Mas ninguém jamais conseguiu me explicar por quê.

— Por que não pode?


Ilustração: Eva Uviedo

Meu nome é Zelda. Alguns de vocês já devem ter ouvido falar de mim. Ou não, é claro. Porque, oficialmente, estou morta. Há anos. Muitos anos. Um trágico acidente envolvendo um incêndio. Depois falamos sobre isso; o que preciso contar aqui é uma história que talvez jamais devesse ser registrada. Consegui, afinal, manter este improvável segredo até meu leito de morte, minha verdadeira morte. Imagino que seja ela chegando agora, as mãos manchadas, os ossos e articulações já não reagindo como antes, as dores, a lentidão, a fraqueza. Mas a mente está intacta. As memórias também. Talvez sejam invenções. Já…


Ilustração: Fabio Quill

Logo tudo começou a entrar em ordem, parece que uma paz reinou naquela casa, o filho sempre num canto, com um aparelho nas mãos, a mãe sempre organizando suas coisas, o pai sempre parado, olhando para a televisão, com o controle na mão, esperando um outro amanhecer.

Foi arrumar seus livros.

A mãe estava no sofá, evitava a mulher, elas nunca se deram muito bem, mas mãe é mãe, não é parente.

A mãe dele, que não conseguia olhar muito tempo pra ela nem conversar muito sem dar uma alfinetada.

Meu filho poderia ter um tanto assim de felicidade, um…


Ilustração: Fabio Quill

Boa tarde, João, hoje seu turno é até que hora?

Boa, seu Carlos Alberto, hoje é até as 20, ontem o senhor chegou tarde.

Fui levar meu pai no médico, nem te conto, rapaz, chegamos mais de 1 da tarde no médico, perguntei se ele queria um café, uma água. Ele disse não. Então foram medir a pressão, tava tipo 5 por 8, aí a enfermeira perguntou o que ele tinha comido. Ele não tinha comido nada, você acredita? Desde que acordou, nem café puro tinha tomado e queria fazer o exame, que é correr na esteira.

Cara, eles são…


Ilustração: Fabio Quill

Carlos Alberto entrou na casa, agora faltava pintar os quartos, tinha deixado as janelas abertas, um cocô de gato estava esperando por ele no primeiro quarto.

Alguém tocou a campainha.

Miséria, nem cheguei, já enchem meu saco.

Já vai.

Opa!

Daniel, o que faz aqui?

Isso é jeito de falar com um amigo?

Desculpa, entra, acabei de chegar.

Tava sabendo de mim, não?

Sim, quando fui pegar essa casa, o pessoal da imobiliária me falou mesmo que…

Que eu tinha mudado pra esse condomínio também, né? …


Ilustração: Fabio Quill

Estrada de Itapecerica da Serra, uma longa estrada que cruza o Capão Redondo e passa para o município de Itapecerica, tem o famoso morro do S, onde os ônibus no horário de pico ficam iguaizinhos a um trem, parados, esperando um maquinista fantasma liberar o trânsito, que, por magia pura, está todos os dias no mesmo horário.

Subindo sentido Valo-Velho, um bairro amontoado de casas e pessoas, vindas de todos os lugares.

Elas tentam agora a todo custo que pequenas paredes chapiscadas ganhem cores de tintas feitas com cal.

Pessoas que saem de suas casas todos os dias de madrugada…


Ilustração: Fabio Quill

Nos primeiros dias de mudança, tiveram que interromper. O corretor não tinha falado desse problema, esse cano não tinha sentido, cadê os registros para desligar a água? Os móveis na sala, o vizinho com a cara desfigurada, a mulher puta da vida, ligando para a imobiliária.

Isso não fazia parte do nosso acordo.

Senhora, dá uma lida no contrato, esses detalhes sempre tem.

Mas a casa é nova, moço.

Mas olha o contrato.

Mas não tem ralo nos banheiros.

Construção moderna.

Mas até na porra da casa da minha avó tinha ralo.

Olha a planta, senhora.

Essa casa não tem…


Ilustração: Fabio Quill

Finalmente escolheu uma casa, sabe aquela sensação de que aquela casa foi feita pra você?

Você bate os olhos e se sente já morando?

Foi assim, quando entrou no velho casarão dos fundos do condomínio, não era bem-vista por ninguém, ficava perto do lago, em frente ao muro que dividia o condomínio dos terrenos comuns.

Térreo, três cômodos, um banheiro, um dos cômodos do fundo pra terminar, uma vida pra viver.

Um relacionamento terminado.

Um sentimento, que se foda o cômodo.

Não teria filhos, não teria cachorros.

Terreno espaçoso, o rapaz mostra tudo, a boca não para de mexer, fala…

FOLHETIM | Sesc Pompeia

Experimento literário do Sesc Pompeia convida escritores a criarem narrativas inéditas

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