“Agora, em português” | Como Valentina aprendeu português (uma história de amor), por Luiz Ruffato, Ep. 5

Para Juliana Loyola e Pasquale Cipro Neto

- Qual a condição, perguntei.

Valentina apagou o cigarro num cinzeiro portátil e disse:

- Daqui para a frente, só falo em português… Quero praticar um pouco, nunca tenho essa oportunidade…

Estacou, titubeou, completou:

- E também porque… porque não quero que ninguém conheça essa parte da… da minha vida…

- Não se preocupe, será um segredo entre nós, eu disse, tentando ser cortês.

Valentina murmurou, Eu era tão feliz no Brasil!, e, tomando fôlego, prosseguiu:

- Imagine, eu, que estava habituada com a praia, o mar, o sol, a liberdade do Rio de Janeiro, de repente me encontrava aqui em Milão, onde não conhecia ninguém, presa em casa, odiava os invernos, o frio deixa as pessoas sérias e tristes… E ainda por cima vivíamos os anos de chumbo, ataques terroristas, greves, desemprego, passeatas, desgoverno… Infernizei a vida dos meus pais, queria porque queria voltar para o Brasil… Acabei adoecendo… Sofria com enxaquecas terríveis, crises de melancolia, virei uma adolescente problemática… Então, súbito, depois de haver cumprido dezoito anos, houve o sequestro do Aldo Moro, Papà temia pelas consequências de tudo aquilo e acabou autorizando que eu passasse um mês no Rio de Janeiro, numa casa de família. Mas no voo conheci a Móni, uma húngara, mais ou menos da minha idade, ficamos em contato e duas semanas depois alugamos juntas uma quitinete na Rua São Clemente, em Botafogo. Então, como vocês dizem, caí na gandaia. Passava as tardes na praia e as noites nos barzinhos e boates de Copacabana e Ipanema. Nos sábados, frequentava rodas de samba e feijoada nos morros. Já estava nessa vida uns quatro meses, quando reencontrei o Eduardo, amigo dos tempos em que morávamos no Rio Comprido — de fato, mais velho que eu três anos, ele era colega da Marta e frequentava nossa casa na Rua Santa Alexandrina. Edu tinha se tornado un bel ragazzo, com aqueles cabelos pretos encaracolados, os olhos também pretos, ar meio blasé, me peguei perdidamente apaixonada. Ele fazia medicina na UERJ e atuava na política estudantil. Começamos a namorar, não desgrudávamos um do outro. Por causa dele, substituí a praia e a boate por marchas pela anistia, panfletagens contra a ditadura, manifestos contra a carestia. Já fazia quase um ano que eu tinha saído daqui, quando Papà descobriu, apavorado, minhas… atividades subversivas… e me deu um ultimatum: ou eu regressava imediatamente, ou ele parava de me enviar dinheiro. Angustiada, expliquei a situação, e Edu falou, Tina, eu te amo, fique aqui, nós daremos um jeito. A família dele era pobre, continuavam morando no Rio Comprido, o pai, dono de um comercinho de bairro, a mãe, doméstica, ele estudava com dificuldade, andava mal arrumado, não tinha dinheiro nem para comprar livros… E eu, acostumada ao dolce far niente… Resolvi voltar… Eu era uma jovem imatura, assustada, dividida… No começo, escrevia longas cartas para ele, nunca respondidas… Bene, daqui para a frente, a história se torna pouco interessante: me formei em direito, casei, várias vezes, aliás, o Silvio é o meu quarto marido, não tive filhos…

Valentina fez uma longa pausa, acendeu outro cigarro, e concluiu:

- Hoje sei, a única vez que fui feliz foi naquele ano, com Eduardo, o melhor ano da minha vida…

(continua)

Agora, em português é o quinto episódio da série Como Valentina aprendeu português (uma história de amor), do escritor Luiz Ruffato. Autor de Eles eram muitos cavalos, Estive em Lisboa e lembrei de você, Flores artificiais, De mim já nem se lembra, Inferno provisório, entre outros, seus livros ganharam prêmios nacionais (Machado de Assis, APCA, Jabuti) e internacionais (Casa de las Américas, em Cuba; Escritor Galego Universal, na Galiza; e Hermann Hesse, na Alemanha). O verão tardio é seu mais recente romance.

Outros episódios:

1º episódio: Milão

2º episódio: Túnis

3º episódio: Rio de Janeiro

4º episódio: Intervalo

6º episódio: Epílogo

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