“Epílogo” | Como Valentina aprendeu português (uma história de amor), por Luiz Ruffato, Ep. 6

Para Juliana Loyola e Pasquale Cipro Neto

Ilustração: Tadeu Costa

Da sala de estar nos chegava o alarido dos outros convidados. Agora, era a música de Ludovico Einaudi que compunha o ambiente.

Tomei a iniciativa, perguntei:

- E você nunca mais o viu?

Valentina soprou a fumaça para longe, amassou nervosa o cigarro no cinzeiro portátil e retomou:

- Cerca de dez anos atrás, Maman morreu, vítima de um câncer no estômago, caí doente, éramos muito próximas, meu segundo casamento, que não andava bem, desandou, pensei que ia morrer de tristeza. A única coisa que me dava algum alento era recordar o período que vivi no Brasil. Então, tirei quinze dias de folga no escritório, tomei um avião e aterrei no Rio de Janeiro. A cidade já não era a mesma, violenta, suja, insegura, mas continuava linda, as praias, a luz, o sol. Mal me instalei num piccolo hotel no Arpoador, pedi a lista telefônica, comecei a procurar a seção de médicos das páginas amarelas e logo encontrei: Eduardo Antônio Sales, cardiologista! Perfeito, pensei, meu problema é justo no coração. Liguei para o consultório, expliquei à secretária que precisava falar com o doutor Eduardo, ela perguntou o assunto, eu falei: Diga a ele que é Ornella Muti, representando Valentina Pecchio. Era uma piada, obviamente, porque o Edu me achava parecida com essa atriz, muito famosa na época. Mas ele não atendeu. A secretária alegou que o doutor estava ocupado. Perguntei se podia telefonar em outra hora, ela repetiu, o doutor é muito ocupado. A frustração misturada ao cansaço do jet lag me derrubaram, dormi catorze horas seguidas. Na manhã seguinte, refeita, consegui marcar uma consulta para o outro dia, como Mariana Campos, nome escrito na lapela da concierge do hotel. Ansiosa, caminhei pela praia, almocei no Restaurante Lamas, no Flamengo, assisti o pôr do sol na Pedra do Arpoador, me recolhi cedo, queria estar ótima para o reencontro. O táxi me deixou num edifício modesto na Tijuca, subi num elevador velhíssimo, de porta pantográfica, na recepção havia duas pessoas à espera. Folheei várias vezes os cinco números de uma revista de cardiologia, única disponível na mesinha de centro, e quando, uma hora depois, a secretária anunciou a minha vez, senti me faltarem as pernas. Eduardo não se assustou ao me ver. Sem se levantar, ele disse: Eu sabia que você ia fazer algo parecido com isso. Trêmula, sentei à sua frente. Eduardo tornara-se proprio un bell’uomo! Num esforço, eu disse: Doutor Eduardo, não vai perguntar o que me fez atravessar o oceano só para ver você? Ele, sardônico, respondeu: Não sabia que minha fama já tinha alcançado a Europa… Ficamos em silêncio. Me senti paralisada com a frieza dele. Então, esquecendo tudo o que havia preparado, disse, num jorro: Edu, eu vim para dizer que só naquele momento em que estivemos juntos consegui ser verdadeiramente feliz… Quando estou deprimida, lembro de nós, das nossas brincadeiras, das nossas conversas intermináveis, dos nossos sonhos… Ele disse: É, temos tendência a idealizar o passado… Eu perguntei, esperançosa: Você não guarda boas recordações daquele tempo? Ele ergueu-se, andou até a janela, que emoldurava o tronco de uma árvore, e disse, de costas: Valentina, eu não penso no que passou… eu vivo para o futuro… E, virando-se: Você tem filhos?, não?, pois eu tenho dois, um casal, lindos (e só então reparei no porta-retratos sobre um armário de aço), e uma companheira admirável, que me ajuda a vencer os dias… Eduardo sentou, e, mudando o tom da voz, disse: Eu te amava muito, Valentina, mas você achava que eu não estava à sua altura… Eu gaguejei: Não é verdade, quer dizer, é verdade… Mas eu era uma garota mimada, Edu, uma garota confusa que não sabia sequer qual era a minha língua, a minha pátria… Ele pareceu não me escutar e continuou: Você me deixou, Valentina, eu afundei nos livros para não me afundar na tristeza. Eu reclamei: Você nunca respondeu nenhuma carta minha. Ele disse: Porque eu queria te esquecer, Valentina. Foi difícil, demorou, mas com o tempo apaguei você da minha vida. Eu falei: Quer dizer que você me esqueceu completamente?! Não sente nem mesmo amizade por mim?, nada? Ele balançou a cabeça e disse: Nada, Valentina, absolutamente nada. Eu engoli meu amor-próprio, me segurei, porque minha vontade era chorar ali mesmo, mas tirei forças não sei de onde, levantei e já estava com a mão na maçaneta, quando o ouvi falar, Valentina. Meu coração disparou, cogitei que ele ia voltar atrás, que ia confessar que também ainda me amava, parei, e ele falou: Não precisa pagar a consulta, não. Saí, perguntei o valor do atendimento, peguei dinheiro da bolsa, paguei, a secretária perguntou se eu queria recibo, disse que não, cumprimentei com a cabeça as pessoas que aguardavam na sala de espera e desci correndo as escadas dos seis andares que me levaram à rua. Ao pisar na calçada, o corpo bambo, a vista escura, falta de ar, pensei, que ironia, agora, sim, vou precisar dos cuidados de um cardiologista. Tomei um táxi, cheguei no hotel, antecipei meu retorno para o dia seguinte, nunca mais pus os pés no Brasil…

Valentina acendeu outro cigarro.

Eu não conseguia ver seu rosto, oculto na sombra, mas quando ela terminou o relato, sua voz não destilava aquele tom irônico e seguro da hora do jantar, mas reverberava apenas mágoa, uma profunda mágoa.

FIM

Luiz Ruffato, por Filipe Ruffato

Epílogo é o sexto episódio da série Como Valentina aprendeu português (uma história de amor), do escritor Luiz Ruffato. Autor de Eles eram muitos cavalos, Estive em Lisboa e lembrei de você, Flores artificiais, De mim já nem se lembra, Inferno provisório, entre outros, seus livros ganharam prêmios nacionais (Machado de Assis, APCA, Jabuti) e internacionais (Casa de las Américas, em Cuba; Escritor Galego Universal, na Galiza; e Hermann Hesse, na Alemanha). O verão tardio é seu mais recente romance.

Outros episódios:

1º episódio: Milão

2º episódio: Túnis

3º episódio: Rio de Janeiro

4º episódio: Intervalo

5º episódio: Agora, em português

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