“Intervalo” | Como Valentina aprendeu português (uma história de amor), por Luiz Ruffato, Ep. 4

Para Juliana Loyola e Pasquale Cipro Neto

Copacabana?!, exclamaram, admirados, pois esse nome produz, mesmo naqueles que não a conhecem, uma sensação de suspensão da realidade. Valentina saboreou lentamente a inveja e o fascínio que provocara, e prosseguiu, fingindo-se entediada:

Enfim, vivi no Brasil entre os três e os catorze anos, até Papà decidir regressar com a família, porque queria que Marta fizesse universidade aqui, mas também porque estava cansado de lidar com os militares, que mandavam e desmandavam no país e interferiam muito nas decisões da empresa. Maman caiu no choro novamente, agora por ter de trocar o clima sempre tropical do Rio de Janeiro pela instabilidade do tempo milanês… Papà arrumou emprego na Magneti Marelli, em Sesto San Giovanni, e desembarcamos em Linate no mês seguinte ao massacre da Piazza della Loggia… Lembram? Tempos horríveis, aqueles…

Erguendo-se, concluiu, faceira:

- E foi assim que aprendi português…

Todos nos levantamos e, em burburinho, nos dispersamos.

As Gymnopédies, de Erik Satie, ilustravam a agradável noite de sábado, a primavera pela metade. Eu percorria a sala observando os quadros pendurados nas paredes e as esculturas espalhadas por entre os móveis, e, embora eu não entenda absolutamente nada de arte contemporânea, tudo ecoava de muito bom gosto. Gentil, Paola aproximou-se e perguntou se havia acatado suas sugestões. Respondi, agradecido, que tinha conhecido o magnífico acervo da Pinacoteca de Brera e o inacreditável efeito ótico conseguido por Bramante na igreja de Santa Maria presso San Satiro, mas que ainda não seria desta vez que visitaria o Cenacolo Vinciano, pois só havia ingresso para terça-feira e eu regressaria no dia seguinte para Washington. Que pena, ela lastimou, emendando, Mais um motivo para retornar a Milão. Simpático, Mattia apareceu e, desculpando-se, carregou Paola com ele.

Discretamente, me refugiei na varanda. Lá embaixo passavam carros buzinando frenéticos, acompanhados por gritos eufóricos brotados das janelas dos prédios vizinhos. É a torcida da Internazionale, Valentina falou, debruçando-se no parapeito, um longo cigarro entre os dedos. Gostou da minha história, ela perguntou, irônica, sem se voltar para mim. Sim, respondi, bela e comovente. Ela então se dirigiu a uma poltrona, num canto afastado, sentou-se, e disse, enigmática, Mas não contei tudo… Eu, exposto ao facho de luz que se projetava da sala de jantar, olhei para Valentina, e sua figura graciosa, diluída na semi-escuridão, pareceu-me quase diáfana. Após uma pausa estudada, na qual seu belo rosto entremostrou-se brevemente aclarado pela brasa do cigarro, ela perguntou, Quer ouvir o restante? Claro, respondi, e me posicionei de costas para o Duomo que, ao longe, emergia, iluminado. Marijo surgiu, repentina, uma bandeja de prata nas mãos, exibindo pequenos cálices de Fernet-Branca. Ambos aceitamos o licor e, assim que a empregada desapareceu casa adentro, Valentina falou, Eu conto, mas imponho uma condição.

(continua)

Intervalo é o quarto episódio da série Como Valentina aprendeu português (uma história de amor), do escritor Luiz Ruffato. Autor de Eles eram muitos cavalos, Estive em Lisboa e lembrei de você, Flores artificiais, De mim já nem se lembra, Inferno provisório, entre outros, seus livros ganharam prêmios nacionais (Machado de Assis, APCA, Jabuti) e internacionais (Casa de las Américas, em Cuba; Escritor Galego Universal, na Galiza; e Hermann Hesse, na Alemanha). O verão tardio é seu mais recente romance.

Outros episódios:

1º episódio: Milão

2º episódio: Túnis

3º episódio: Rio de Janeiro

5º episódio: Agora, em português

6º episódio: Epílogo

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