“Rio de Janeiro” | Como Valentina aprendeu português (uma história de amor) , por Luiz Ruffato, Ep. 3

Para Juliana Loyola e Pasquale Cipro Neto

Ilustração: Tadeu Costa

em que percebêssemos, Marijo havia recolhido os pratos e Roberta anunciava a sobremesa, pan de mej, enquanto Franco dizia que, depois, quem quisesse poderia desfrutar de uma dose de Fernet Branca ou uma xícara de café, ou ambos, juntamente com um charuto (e exibiu a caixa de Partagas), na sala onde estivemos inicialmente ou na varanda, que se debruçava sobre os prédios da Piazza Missori. Valentina se calara, aguardando talvez que o público reclamasse a continuação da história, o que não tardou muito, já que, quase ao mesmo tempo, Roberta e Mattia disseram, O que aconteceu, então? Implicante, Anna observou, Quando interrompeu, você não tinha nem nascido ainda… Valentina seguiu desprezando-a e tratou de elogiar o pan de mej, Esse nome é lombardo, sabiam? Têm certeza de que não estou sendo chata?, perguntou, mas antes ainda que alguém respondesse, retomou a narrativa:

A independência trouxe muita incerteza quanto ao futuro da ex-colônia. Em pouco mais de um ano, o Bei foi deposto, a república proclamada, os funcionários da administração francesa expulsos, as ruas rebatizadas, as estátuas derrubadas. Mas meu pai, que se sentia mais tunisiano que italiano, não se abalou, porque acreditava que logo tudo se normalizaria. Quando Habib Bourguiba assumiu de vez o poder, as coisas se complicaram ainda mais; ele radicalizou o discurso nacionalista, espantando os estrangeiros, que começaram a fugir. Eu nasci no meio dessa confusão. Apavorada, minha mãe convenceu meu pai a deixá-la regressar para a Itália comigo, bebê de colo, e Marta, com três anos, enquanto ele, insistindo que não tinha nada a temer, porque não se intrometia com política, permaneceu em Túnis. Fomos acolhidos na casa dos meus avós maternos e Maman teve uma crise nervosa, preocupada com a situação de meu pai, tão distante. Pouco mais de um ano se passou e estourou o conflito entre a Tunísia e a França por causa da base naval de Bizerta. Meu pai pegou um ferry para Palermo e desembarcou em Milão sem nada, somente com uma mala pequena de roupas. Desempregado, sem dinheiro, sem perspectiva, Papà, que é um homem forte e positivo, esteve à beira da depressão, segundo Maman contava. Até que, num almoço de domingo, na casa dos meus avós paternos, o Papà-Grand comentou que um amigo que trabalhava na Alfa-Romeo havia dito que a empresa estava precisando de alguém com experiência para a direção da fábrica no Brasil, onde estavam começando a produzir automóveis. No dia seguinte, meu pai conseguiu uma entrevista em Portello e voltou para casa anunciando que aceitara o emprego, Vamos mudar para o Brasil, ele disse, empolgado, enquanto Maman caía no choro. Um mês depois, Papà assumiu o posto numa empresa chamada FNM, num lugar de nome quase impronunciável, Xerém, está certo, Dório? (eu balancei a cabeça afirmativamente, embora ela tivesse dito algo que soava como “Zeremm”). Fomos morar no Rio de Janeiro, primeiro numa casa enorme, num bairro de subúrbio, Rio Comprido, e, depois, num apartamento na altura do Posto 5, na praia de Copacabana.

(continua)

Luiz Ruffato, por Filipe Ruffato

Rio de Janeiro é o terceiro episódio da série Como Valentina aprendeu português (uma história de amor), do escritor Luiz Ruffato. Autor de Eles eram muitos cavalos, Estive em Lisboa e lembrei de você, Flores artificiais, De mim já nem se lembra, Inferno provisório, entre outros, seus livros ganharam prêmios nacionais (Machado de Assis, APCA, Jabuti) e internacionais (Casa de las Américas, em Cuba; Escritor Galego Universal, na Galiza; e Hermann Hesse, na Alemanha). O verão tardio é seu mais recente romance.

Outros episódios:

1º episódio: Milão

2º episódio: Túnis

4º episódio: Intervalo

5º episódio: Agora, em português

6º episódio: Epílogo

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