“Todo amanhã um dia se torna ontem” | Peixe fora d’água com banzo, por Elizandra Souza, Ep. 4

Ilustração: Carol Itzá

Passou uma semana, deixou para ir até a casa dos seus avôs no último dia. Diante da porteira azul, as lágrimas invadiram seu semblante como torneira quebrada, que não cessa a água.

Lembrou que a sua vozinha não estaria esperando com café quente, seu bolo de arroz, seu cheiro de seiva de alfazema, seu doce de caju, seu abraço macio, não pediria que pegasse lenha, varresse o quintal, apanhasse os ovos no galinheiro, colhesse acerolas para fazer suco…

Ficou inerte diante da estradinha de terra que conduzia até a casa, estacionada bem no meio da fazenda, com dois pés de cajueiros parecendo os seguranças da propriedade, um de cada lado.

A casa era bem grande, pintada de azul, na frente uma pequena porta e janela, uma área pequena com duas muretas, em volta uma pequena cerca. Sentiu um delicioso perfume de jasmim, a flor preferida da sua avó.

Ao entrar, seu tio estava na cozinha, tentando reproduzir as vivências da infância de Rosa. Diante do fogão de lenha, cozinhava uma galinha, do lado esquerdo um cesto cheio de cocos verdes. Ele foi descascando e oferecendo.

A lenha queimando, o alimento sendo cozido, perfume no ambiente de galinha caipira, arroz, feijão, farofa com carne de sol.

Quando colocou na boca, foi como se sua avó tivesse preparado. O rio começou a escorrer dos olhos, inundando o alimento no prato.

Como não foi ao enterro, na sua lembrança seus avôs estariam por ali. Mas, agora que não os encontrou ela tinha uma saudade no peito.

Seus avós faleceram um em seguida do outro. Eles estavam enterrados na mesma fazenda, onde passaram toda a vida de casados, criaram os filhos, brincaram com os netos. Numa capela toda de azulejos brancos, seus corpos estavam descansando para a eternidade. Algumas imagens de santos também habitavam o lugar, na frente foi plantado um pé de jasmim, para que a sua avó não sentisse saudades de sua flor predileta.

— Tio, cadê o meu balanço e o cajueiro onde ele ficava?

— Ele morreu uns anos depois que você se mudou para São Paulo, acho que sentiu a sua falta, já que era a única que o visitava, plantava e colhia sonhos diante dos seus olhos. Aquele balanço, as crianças não gostavam de brincar. Ele era só seu.

— Vamos à lagoa? Quero ver como ela está.

— Que lagoa?

— Aquela perto da mangueira…

— Ali agora é só uma poça de lama. Quer mesmo ir até lá?

Rosa não acreditou que sua tão temida lagoa, onde sempre esperava sentada na mangueira um jacaré correr atrás dela para almoçá-la, não passava de uma pequena poça onde tinham duas patas e dois filhotes como únicos habitantes.

— A seca está muito intensa. Estamos esperando chover desde o inverno passado, mas o sol só maltrata e racha a terra. As estradas andam tão quentes que são capazes de derreter até os pneus dos carros.

No entardecer, seu tio levou Rosa até a rodoviária, já que ela passaria alguns dias também em Salvador.

Todo amanhã um dia se torna ontem é o quarto episódio da série “Peixe fora d’água com banzo”, da escritora Elizandra Souza. A autora é ativista cultural há 18 anos com ênfase na difusão do jornalismo cultural da Periferia e da Literatura Negra Feminina. É integrante fundadora do Sarau das Pretas desde 2016, autora dos livros de poesias Águas da Cabaça (2012) e Punga, em co-autoria Akins Kintê (2007). Além disso, foi editora do Coletivo Mjiba dos livros Águas da Cabaça (2012), Pretextos de Mulheres Negras (2013) e Terra Fértil (2014). Também atuou como editora e jornalista responsável na Agenda Cultural da Periferia na Ação Educativa (2007- 2017), participou do Festival Internacional de Poesia em Havana (Cuba), 2016, e do Congresso LASA / Nuestra América: Justice and Inclusion, em Boston (EUA), 2019.

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