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Ilustração: Carol Itzá

Dentro do ônibus, em direção a Salvador, Rosa com muitas reflexões sobre sua existência começou a escrever para si:

“Essa viagem é sozinha. É para um lugar onde eu não conheço. Não reservei hotel. Não comprei passagem. Preciso ir com pouca bagagem, aprendi que levar pouca coisa é essencial para aproveitar bem a viagem e poder trazer algo.

Para mim ainda é difícil viajar sozinha, na verdade eu tenho receio de me perder no destino. Entrar em uma porta e não encontrar mais uma saída.

Hoje estou querendo ir para a praia, qualquer praia sem ondas ou que elas sejam…


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Ilustração: Carol Itzá

Passou uma semana, deixou para ir até a casa dos seus avôs no último dia. Diante da porteira azul, as lágrimas invadiram seu semblante como torneira quebrada, que não cessa a água.

Lembrou que a sua vozinha não estaria esperando com café quente, seu bolo de arroz, seu cheiro de seiva de alfazema, seu doce de caju, seu abraço macio, não pediria que pegasse lenha, varresse o quintal, apanhasse os ovos no galinheiro, colhesse acerolas para fazer suco…

Ficou inerte diante da estradinha de terra que conduzia até a casa, estacionada bem no meio da fazenda, com dois pés de…


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Ilustração: Carol Itzá

No saguão do aeroporto, a família se despedia, recomendando abraços nos familiares e fazendo algumas solicitações como castanha, polvilho, doce de caju…

Rosa desembarcou em Salvador, pegou um táxi até a rodoviária e depois um ônibus até sua cidade. Como a viagem duraria cinco horas, trouxe mantimentos, seu velho bloquinho, uma pequena mala vermelha e seu celular.

Estava tensa, pois fazia treze anos que não ia para lá. Se tivesse tudo mudado, se não reconhecesse as pessoas, as ruas, sua casa, sua história…

Quanto mais os pneus rodavam, mais ela se distanciava do seu presente para visitar o seu passado…


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Ilustração: Carol Itzá

Rosa morava sozinha em um desses bairros onde o metrô ainda não chegou e o asfalto ainda é só promessa, mas a casa foi a sua maior conquista, mesmo que ainda faltassem muitas prestações.

Com seus 29 anos, prometia-se que seria bem-sucedida na profissão de sua escolha. Era uma jovem da cor da noite, recém-formada em história, sua segunda graduação. A primeira fora em jornalismo, que terminou quando tinha 24 anos.

O sol ainda bocejava. No ponto de ônibus, fez sinal para que o motorista parasse. Teve dificuldade para chegar até a catraca, mas como só iria descer próximo do…


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Ilustração: Carol Itzá

Em uma noite quente, em sua cama de madeira forrada com lençóis brancos, Rosa se virava de um lado para outro, inquieta.

Sonhava com uma menininha com duas trancinhas, pernas grossas, cor de chocolate, sorriso quase sem dentes, que com a curiosidade do mundo apontava para o rio.

Suas águas desfilavam para a direita, carregando flores de girassóis.

Rosa chegou mais perto, preocupada para que a menina não caísse no rio.

O despertador tocou e ela acordou sem saber a continuação daquele sonho, mas com a sensação de que de fato tinha vivido tudo aquilo.

Sentia-se mãe daquela menininha, e…


Para Juliana Loyola e Pasquale Cipro Neto

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Ilustração: Tadeu Costa

Da sala de estar nos chegava o alarido dos outros convidados. Agora, era a música de Ludovico Einaudi que compunha o ambiente.

Tomei a iniciativa, perguntei:

- E você nunca mais o viu?

Valentina soprou a fumaça para longe, amassou nervosa o cigarro no cinzeiro portátil e retomou:

- Cerca de dez anos atrás, Maman morreu, vítima de um câncer no estômago, caí doente, éramos muito próximas, meu segundo casamento, que não andava bem, desandou, pensei que ia morrer de tristeza. A única coisa que me dava algum alento era recordar o período…


Para Juliana Loyola e Pasquale Cipro Neto

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Ilustração: Tadeu Costa. Fotografia: Arquivo Público do Estado de São Paulo

- Qual a condição, perguntei.

Valentina apagou o cigarro num cinzeiro portátil e disse:

- Daqui para a frente, só falo em português… Quero praticar um pouco, nunca tenho essa oportunidade…

Estacou, titubeou, completou:

- E também porque… porque não quero que ninguém conheça essa parte da… da minha vida…

- Não se preocupe, será um segredo entre nós, eu disse, tentando ser cortês.

Valentina murmurou, Eu era tão feliz no Brasil!, e, tomando fôlego, prosseguiu:

- Imagine, eu, que estava habituada com a praia, o mar, o sol, a liberdade do Rio…


Para Juliana Loyola e Pasquale Cipro Neto

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Ilustração: Tadeu Costa

Copacabana?!, exclamaram, admirados, pois esse nome produz, mesmo naqueles que não a conhecem, uma sensação de suspensão da realidade. Valentina saboreou lentamente a inveja e o fascínio que provocara, e prosseguiu, fingindo-se entediada:

Enfim, vivi no Brasil entre os três e os catorze anos, até Papà decidir regressar com a família, porque queria que Marta fizesse universidade aqui, mas também porque estava cansado de lidar com os militares, que mandavam e desmandavam no país e interferiam muito nas decisões da empresa. Maman caiu no choro novamente, agora por ter de trocar o clima…


Para Juliana Loyola e Pasquale Cipro Neto

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Ilustração: Tadeu Costa

Sem que percebêssemos, Marijo havia recolhido os pratos e Roberta anunciava a sobremesa, pan de mej, enquanto Franco dizia que, depois, quem quisesse poderia desfrutar de uma dose de Fernet Branca ou uma xícara de café, ou ambos, juntamente com um charuto (e exibiu a caixa de Partagas), na sala onde estivemos inicialmente ou na varanda, que se debruçava sobre os prédios da Piazza Missori. Valentina se calara, aguardando talvez que o público reclamasse a continuação da história, o que não tardou muito, já que, quase ao mesmo tempo, Roberta e Mattia disseram…


Para Juliana Loyola e Pasquale Cipro Neto

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Ilustração: Tadeu Costa

Após todos elogiarmos a elegância do prato e a correção do vinho, Roberta, percebendo o constrangimento de Silvio, fustigou Valentina, Silvio, sua mulher é um poço de mistério… Sem olhar para a amiga, Valentina disse, bem-humorada: Gente, minha vida é um livro aberto, mas não tenho culpa se nem as pessoas mais próximas sabem sequer onde eu nasci… Roberta deteve o garfo no ar e perguntou, espantada, Não foi aqui em Milão?! Valentina balançou a cabeça negativamente, e, com certa perversidade, voltou a mastigar, sem pressa. Silvio murmurou, Se não foi em Milão……

FOLHETIM | Sesc Pompeia

Experimento literário do Sesc Pompeia convida escritores a criarem narrativas inéditas

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