Ilustração: Monique Malcher

36.

Os irmãos inda pequenos

Acordaram num instante

Com o choro por comida

Sem haver nada restante

Pro quintal ela saiu

Fingindo que não ouviu

Com incômodo frustrante.

37.

Separou a água limpa

Para poder se banhar

Um restim de sabonete

Inda deu para encontrar

E a roupa pelo chão

Entre o barro e o sabão

Se agachou para lavar.

38.

Foi olhando aquele sangue

E lavando a sua blusa

Era aquela sensação

Muito ruim e tão intrusa

Uma coisa só sabia

Pelo que sua mãe dizia

Era moça, mas confusa.

39.

Quando pegou na calcinha

Teve um grande desconforto


Ilustração: Monique Malcher

1.

Na manhã escurecida

Uma lata carregava

Com seus braços para cima

Na cintura equilibrava

Meia trouxa de lavados

Já torcidos e secados

Que no corpo se embrulhava.

2.

Tinha pano de criança

De menino pinoteiro

Camisola desbotada

Pela falta de dinheiro

Tinha calça fubazenta

De tintura tão sedenta

Do irmão que era solteiro.

3.

Enedina já conhece

Os caminhos do sertão

No seu trote agoniado

Vai mirando pelo chão

Conta pedra e rachadura

Chora causo de amargura

E sussurra palavrão.

4.

“Tô cansada dessa vida

Desses pano mal lavado

Na peleja desses dia

Sobra tudo pro meu rabo

Os…


Ilustração: Pedro Franz

Estão todos mortos no cubo de concreto. A neurotoxina secretada pela criança-planta não poupou nem o organismo fractal, que deixou como cadáver um esqueleto de sílica de atordoante complexidade, o mais belo fóssil que a Terra jamais abrigaria. A criança-planta estiolou, as vespas quedaram reduzidas a pontos de matéria seca, a vitalidade de enxame subtraída do ambiente como uma fumaça levada pelo vento.

Justine é um cadáver translúcido, curiosamente poupado pela decomposição, pelo menos por ora. O frio seco e a esterilidade de sua cela preservaram seus tecidos num arremedo de criogenia, um museu temporário da sua excepcionalidade. …


Ilustração: Pedro Franz

Estavam num vale aos pés dos Andes, isso Justine era capaz de adivinhar. Mas nenhum deles saberia dizer se era mais acima ou mais abaixo no continente, em que ponto das antigas fronteiras que delimitavam nações extintas. A criança-planta escreveu no seu bloquinho, usando como tinta a seiva avermelhada de um ramo: “Alguma coisa parece errada”.

Ela se referia ao pequeno prédio de cimento instalado numa plataforma sobre o charco, um grão de civilização entre os maciços desumanos das montanhas. Olhando de longe, não havia movimento. A única outra presença era a ausência de Clarice. As vespas foram investigar, mas…


Ilustração: Pedro Franz

Venho evitando intervir na história. Escolho fatos para ter onde pisar e acrescento detalhes que, espero, ajudem a imaginação a se ramificar. Mas quero fazer dois comentários… Primeiro: tudo é fractal. Sempre. Se não aparenta, é necessário ajustar o eixo da observação ou simplesmente tomar distância.

Segundo: a diferença e a novidade que se vê na sucessão das criaturas resultam em grande parte de um ruído. Ruído na transcrição de genes, no pipocar dos embriões. Ruído na memória e na transmissão da cultura. Um ruído aleatório no mais absoluto sentido, sem leis nem desígnio superior. Pronto, está dito. Me retiro.


Ilustração: Pedro Franz

Os demônios, os milagres, as perversões genéticas. Muitos estavam atrás deles, havia recompensas e pura maldade. Mas também havia quem os admirasse e protegesse. Alguns povos indígenas, e gente simples que via neles a novidade tão esperada em meio à doença e às extinções.

Foram acolhidos por outros biólogos jovens como Truco, que formavam um culto todo à parte. Alguns nessa rede traziam relatos de outros mutantes. Uma criança-planta e um organismo fractal que desafiava descrição. Ambos ao sul, aparições no corredor árido que avançava até o pampa.

As últimas baterias de lítio de Justine e as últimas pedras preciosas…


Ilustração: Pedro Franz

Justine não aceitou a condição que o pai lhe impôs para autorizar a viagem ao Norte. Queria ir sozinha. Confiava que desse modo teria mais chances de passar despercebida e se proteger de qualquer ameaça. Quem entendia a relação de seu corpo com o mundo era ela mesma, não havia como explicar a ninguém a sensação da porosidade de suas fronteiras, o reflexo da translucidez da pele no governo das suas sensações.

Teve de fugir. Levou na mochila seu arsenal de panos e lenços, de luvas e de óculos, dos tecidos justos de variadas cores com os quais iludia o…


Ilustração: Pedro Franz

Quero contar pra vocês uma coisa que me aconteceu.

Começou com uma menina que foi batizada de Justine. Ela nasceu com oito meses, de parto vaginal, de uma mãe que estava inconsciente em um leito de tratamento intensivo, recebendo ventilação mecânica, com pulmões e vasos sanguíneos comprometidos. O pai, num primeiro momento, foi impedido de ver a recém-nascida, e nunca mais viu a companheira, que faleceu horas depois de dar à luz.

Na sala de tratamento intensivo neonatal, a pediatra examinava com espanto a bebê. Como uma larva de peixe, ela era translúcida. Dava para entrever seus globos oculares por…


Ilustração: Eva Uviedo

Eu só pensava em fugir. Não era exatamente um plano. Era um desejo intenso que me fazia queimar e só acalmava quando eu era dopada. Na sala de espera do eletrochoque, que era o que merecia uma mulher rebelde, uma mulher desobediente, uma mulher livre, que bebia, dançava, que simplesmente queria existir com a liberdade de que os homens brancos sempre desfrutaram, ouvi os gritos, senti a fumaça e veio o pânico. A enfermeira, sei lá se sobreviveu, e também não me interessa, saiu apressada para ver o que estava acontecendo e se esqueceu de trancar a porta atrás de…


Ilustração: Eva Uviedo

Mas o fracasso, caros, pode ser o caminho do sucesso.

Pode também não ser. Mas sucesso é algo relativo; para mim, o sucesso dele, falso, é um fracasso e uma farsa, que não traz paz ao deitar a cabeça no travesseiro. Por isso, ele só dormia bêbado, e eu, dopada. Não mais ao lado dele. Mesmo que ainda fosse possível, seu cheiro me trazia ojeriza. O cheiro de um traidor. Não um adúltero; com isso sequer me importaria. …

FOLHETIM | Sesc Pompeia

Experimento literário do Sesc Pompeia convida escritores a criarem narrativas inéditas

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