Milão” | Como Valentina aprendeu português (uma história de amor) , por Luiz Ruffato, Ep. 1

Para Juliana Loyola e Pasquale Cipro Neto

Ilustração: Tadeu Costa

Visivelmente contrariada, Roberta, a dona da casa, uma mulher linda e sofisticada, editora de uma das principais revistas femininas da Itália, nos convocou a sentar à mesa para o jantar, embora ainda faltasse um casal. Eu estava ali a convite de Paola, que conhecera há dois anos durante um simpósio em Milão, cujo marido era sócio ou uma espécie de gerente na agência de publicidade do marido de Roberta. Quando estávamos terminando a entrada, brusqueta de cogumelo e queijo parmesão, guarnecida por um excelente Barbera D’Alba, o casal atrasado irrompeu na sala. Semierguemo-nos para cumprimentá-los e, antes mesmo de Roberta dizer qualquer coisa, a mulher passou a se justificar, lamentando a impossibilidade de estacionar na cidade, Ficamos rodando por quase meia-hora, acreditam?, até encontrar um lugar vago. Eles tomaram seus lugares e agora somávamos oito pessoas ao todo. Além de mim, dos donos da casa, de Paola e o marido, e dos recém-chegados, havia uma jovem jornalista, Anna, braço-direito de Roberta, afetada e convencida.

Antes de servirem o prato principal, Roberta apresentou-nos um a um a Valentina e Silvio, citando nome e profissão. Quando chegou a minha vez, ela disse, Dório Finetto, consultor do Banco Mundial, e Paola ajuntou, Dório é brasileiro, desvanecida pelo exotismo da informação. Neste momento, os olhos azulíssimos de Valentina, sentada exatamente à minha frente, brilharam. Brasileiro?, ela perguntou, e, num gesto teatral, ofereceu-me a mão para beijar, de onde sobressaía o anel com um fulgurante diamante, dizendo, em bom português, Muito prazer! Valentina era uma mulher de pouco mais de cinquenta anos, embora não parecesse — digo isso, porque, mais tarde, fiz as contas a partir dos indícios que ela forneceu -, magra, estatura mediana, cabelos castanhos-claros, sorriso irônico desenhado nos lábios, como se estivesse sempre achando tudo muito divertido.

Surpresa, Roberta disse, Você sabe falar brasileiro? Português, Valentina corrigiu, no Brasil se fala português. Roberta voltou à carga, Nossa!, somos amigas há… tanto tempo… nunca soube que você falasse outras línguas… Valentina respondeu, sarcástica, Minha querida, além do português, falo inglês, francês, e até mesmo lombardo… Você fala lombardo? Quase ninguém mais fala lombardo, Paola comentou. Roberta se esquivou, Estava brincando, Valentina, você sabe disso… Eu sei, Roberta, ela respondeu, ríspida… Silvio então tomou a palavra, entre orgulhoso e ressentido — aliás, uma das raras vezes que ouvi sua voz -, Nem eu sabia que a Valentina sabia falar brasileiro…. Português, Valentina corrigiu novamente, fulminando-o. E complementou: Há muito mais coisas da minha vida que você não sabe, Silvio… E sorriu, impiedosa, enquanto Marijo, a empregada filipina, servia o mondeghilli, uma espécie de almôndega típica da Lombardia, e Franco, o marido de Roberta, enchia as taças com um fantástico Barbaresco.

(continua)

Luiz Ruffato, por Filipe Ruffato

Milão é o primeiro episódio da série Como Valentina aprendeu português (uma história de amor), do escritor Luiz Ruffato. Autor de Eles eram muitos cavalos, Estive em Lisboa e lembrei de você, Flores artificiais, De mim já nem se lembra, Inferno provisório, entre outros, seus livros ganharam prêmios nacionais (Machado de Assis, APCA, Jabuti) e internacionais (Casa de las Américas, em Cuba; Escritor Galego Universal, na Galiza; e Hermann Hesse, na Alemanha). O verão tardio é seu mais recente romance.

Outros episódios:

2º episódio: Túnis

3º episódio: Rio de Janeiro

4º episódio: Intervalo

5º episódio: Agora, em português

6º episódio: Epílogo

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