“Sonhos são fenômenos extraordinários!”, por Natalia Borges Polesso, Ep.1

Ilustração: Aline Zouvi

Eu gosto de andar, especialmente quando não conheço a cidade. Gosto de pensar que, nessas cidades turísticas, é impossível se perder, porque sempre vamos encontrar algum ponto que é referência, mesmo se nunca tivéssemos pisado naquela paisagem antes, se isso é mesmo possível. Numa esquina entre o jardim botânico e o antigo zoológico, entrei numa confeitaria. Comprei um café e una medialuna. Faltavam duas horas e meia para a palestra e resolvi ir a pé, só pela deriva. E, por alguma distração, passei a rua em que deveria ter virado à direita. Passei muito. Acabei chegando à Plazoleta Julio Cortázar. Cheia, viva, barulhenta. Sentei para tomar uma cerveja, e considerei não ir à palestra, mas a Miranda me mataria. Minha ideia de viagem era andar, sentar em algum lugar, comer, tomar algo, andar, sentar, e olhar o movimento, andar, sentar, comer e beber algo, andar, eventualmente, entrar em um museu, depois comer, andar. Já deu para entender. Eu gostava de viajar sozinha; não era um problema para mim estar ali e observar. E se alguém chegasse a fim de conversas, como essas coisas inusitadas que acontecem em viagem, tudo bem. Eu poderia conversar e seria ótimo. Eu também gosto de viajar acompanhada, é claro. Porque eu gosto de pessoas e de lugares. Terminei a cerveja sem qualquer abordagem alheia. Voltei pelo mesmo caminho, pela rua Thames, e passei por Honduras, El Salvador, Costa Rica, Nicarágua até chegar à Guatemala e, enquanto vencia essas fronteiras a pé, andando por um rio, sorri pelo fascínio da poesia que o mundo me dava ali, naquele caminho.

Cheguei ao Centro Cultural de La Ciência relativamente cedo. Tinha pouca gente ainda. A Miranda me deu o ingresso de presente de aniversário. E a passagem.

O auditório abriu e eu procurei o meu lugar na metade e no canto, menos nas franjas, da plateia baixa. Não demorou muito e todas as cadeiras já estavam preenchidas. As luzes ao redor se apagaram e a do palco se acendeu na nossa frente. Logo, veio uma voz.

— Vocês sabiam que uma pessoa passa, em média, seis anos de sua vida sonhando? Contando o que a gente entende por sonhos corriqueiramente: aqueles que acontecem enquanto dormimos. E não é muito interessante que, ao acordar, muitas vezes esquecemos dos sonhos e eles nem sequer se tornam assunto durante o nosso dia? Sendo que, à noite, o nosso cérebro trabalha tão arduamente pra nos brindar com as mais incríveis e às vezes bizarras- imagens e histórias aparentemente sem sentido?

O jogo de luzes projetava uma sombra falante. Tentei me mexer para ver de quem era aquela voz, mas a arquitetura da luz era perfeita demais.

— Mas o que são os sonhos? Alguém pode ou quer me responder? Você, de blusa vermelha: eu sonhei com uma pessoa de vermelho, vamos ver se isso é um sinal. O que são os sonhos?

O homem levantou, meio sem jeito.

— Boa noite — ele disse. — Eu acho que sonhos são sentimentos que a gente cria com imagens, coisas que a gente viveu, nossos medos e desejos.

Natalia Borges Poless (acervo pessoal)

Natalia Borges Polesso é pesquisadora, escritora e tradutora. Publicou Recortes para álbum de fotografia sem gente (2013), Amora (2015), vencedor do Prêmio Jabuti, Controle (2019), seu primeiro romance, vencedor dos prêmios Ages e Vivita Cartier e finalista do Prêmio São Paulo de Literatura, Corpos Secos (2020) e A extinção das abelhas (2021) . Em 2017, a autora foi selecionada para a lista Bogotá39, que reúne os 39 escritores abaixo de 40 anos, mais destacados da América Latina. Natalia tem seu trabalho traduzido em diversos países, tais como Argentina, Espanha e Estados Unidos.

2º episódio: Episódio 2

3º episódio: Episódio 3

4º episódio: Episódio 4

5º episódio: Episódio 5

6º episódio: Episódio 6

Revisão: Agnes Sofia Guimarães

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FOLHETIM | Sesc Pompeia

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