“Clarice” | Mutantes, por Daniel Galera, Ep. 6

Estão todos mortos no cubo de concreto. A neurotoxina secretada pela criança-planta não poupou nem o organismo fractal, que deixou como cadáver um esqueleto de sílica de atordoante complexidade, o mais belo fóssil que a Terra jamais abrigaria. A criança-planta estiolou, as vespas quedaram reduzidas a pontos de matéria seca, a vitalidade de enxame subtraída do ambiente como uma fumaça levada pelo vento.

Justine é um cadáver translúcido, curiosamente poupado pela decomposição, pelo menos por ora. O frio seco e a esterilidade de sua cela preservaram seus tecidos num arremedo de criogenia, um museu temporário da sua excepcionalidade. Ninguém mais para ver.

Todos mortos, exceto a psicóloga, que partiu em segredo antes do massacre e agora atravessa a planície patagônica em seu jipe reluzente, desconhecendo, ainda, o destino de seus colegas e espécimes mutantes. Dias depois, na sede da corporação, ela guardará o segredo que Justine lhe confiou e empregará seus recursos e contatos nas células de pesquisa para tentar encontrar a menina, Clarice, que Justine garantiu ser dotada das mais prodigiosas capacidades.

Meses depois, a psicóloga localiza Truco. O corpo do biólogo está numa cova sem lápide de um cemitério imenso, no cinturão de excluídos em torno da megalópole paulistana. Os exames revelam o previsível. Superbactérias. Da menina supostamente excepcional, a psicóloga nunca terá notícia.

Clarice desaparece da memória, assim como acontecerá aos poucos com a garota transparente, a criança-árvore, o menino-vespa. Não me peçam para explicar o que os forçou a fugir, o que os acuou do convívio com os demais humanos e, enfim, os apagou da tapeçaria das formas vivas. Não me perguntem também se eram humanos ou não. Essas categorias não fazem parte do meu repertório.

Prestem atenção, se realmente se interessam. Há inúmeras novidades e experiências semelhantes ocorrendo a todo momento no bioma. Os autodenominados humanos me surpreendem há milênios em sua inclinação para não vê-las quando estão debaixo dos seus olhos, vê-las somente para sufocá-las.

Mas, para terminar, também acontece isso: anos depois, o pai de Justine, agora um homem muito idoso que cuida de um canil na zona rural da mesma cidade em que a história começou, escuta a campainha tocar e abre a porta de casa. Uma menina de onze ou doze anos, vestindo um macacão de fibra do coco e uma viseira estranha, alguma tecnologia que ele não conhece, o encara com um sorriso receoso. Ele não a conhece, mas a reconhece.

No grande panorama das coisas, o reencontro dessa neta com esse avô, a existência afetuosa e prosaica que levarão até o fim, é talvez a coisa mais estranha, mais espantosa que se pode registrar. A gravitação dos afetos. Chamem de vida se quiserem. Meu nome nunca é pronunciado em vão.

Clarice é o sexto episódio da série “Mutantes”, do escritor Daniel Galera. O autor nasceu em São Paulo e vive em Porto Alegre. Escritor e tradutor, publicou os romances “Meia-noite e vinte” (2016), “Barba ensopada de sangue” (2012, vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura”) e “Mãos de Cavalo” (2006), entre outros livros. Escreve ensaios sobre literatura, vídeo games e cultura. “O deus das avencas”, uma coleção de novelas, será publicado em junho pela Companhia das Letras.

Outros episódios:

1º episódio: Vidraça

2º episódio: Enxame

3º episódio: Placenta

4º episódio: Rapto

5º episódio: Fractal

Revisão: Cláudio Leite

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