“Enxame” | Mutantes, por Daniel Galera, Ep. 2

Justine não aceitou a condição que o pai lhe impôs para autorizar a viagem ao Norte. Queria ir sozinha. Confiava que desse modo teria mais chances de passar despercebida e se proteger de qualquer ameaça. Quem entendia a relação de seu corpo com o mundo era ela mesma, não havia como explicar a ninguém a sensação da porosidade de suas fronteiras, o reflexo da translucidez da pele no governo das suas sensações.

Teve de fugir. Levou na mochila seu arsenal de panos e lenços, de luvas e de óculos, dos tecidos justos de variadas cores com os quais iludia o olhar dos outros. Suas peles opacas. O dinheiro digital que acumulou como programadora foi convertido em moedas adequadas à expedição: livros proibidos, baterias de lítio, chips de vacinação falsos, anestésicos.

Viagens aéreas eram um negócio complicado. Aeronaves a combustível fóssil já quase não operavam e drones causavam o inferno nas mãos de milícias e ecoterroristas. Descolou uma carona de moto até o Sudeste. De lá tomou balões e dirigíveis clandestinos que flutuaram no céu limpo ao lado de tucanos e através de tempestades de fumaça. A pilota de um deles a beijou e a convenceu a mostrar o corpo, mas não conseguiu lidar. “Me agonia, dá pra ver tudo”, disse a mulher.

Justine levou dois meses para chegar à localidade de onde partiam os relatos. Uma área desmatada no limiar do árido amazônico que se expandia aos olhos das criaturas e dos satélites. Ali a curiosidade dos homens era mais perigosa. Teve de usar mais de uma vez seus sprays e armas de choque.

As aparições da criança-vespa se concentravam em determinada ilha no leito de um rio. Um jovem de cabelos compridos acampava por lá. “Pode me chamar de Truco”, ele disse. Um biólogo de poucas palavras, com um tique no lado esquerdo do rosto. “Estou tentando estudar o Enxame.”

O Enxame apareceu na segunda manhã após sua chegada. Justine abriu a barraca, despertada pelo zumbido denso, e viu a nuvem de insetos circulando em torno de si mesma, coagulando aos poucos na forma humana. Tinha a estatura de um adulto e não se podia dizer muito mais que isso. O Enxame não tinha gênero, não falava. Eu mesma me impressionava diante do que ele representava, não pensava que era possível. No entanto, ali estava.

Justine estendeu a mão ao Enxame. Eram muito diferentes, mas iguais em alguma coisa que não a mera diferença. O corpo-menino feito de vespas se aproximou, uma coisa sólida e fluida ao mesmo tempo, agregando em si mais sincronia do que ecossistemas inteiros. Vespas passaram por baixo das roupas de Justine e exploraram sua pele transparente, retornando ao Enxame para descrever o que encontravam.

Truco manteve distância respeitosa, mas estava atento. Mais tarde, quando o Enxame já tinha se dissipado, retirou com delicadeza o capuz e os óculos de Justine, que se sentiu vista pela primeira vez como o que era. Não uma aberração ou milagre, mas apenas uma variação aventureira, brincalhona. Por muito tempo não se separariam.

Enxame é o segundo episódio da série “Mutantes”, do escritor Daniel Galera. O autor nasceu em São Paulo e vive em Porto Alegre. Escritor e tradutor, publicou os romances “Meia-noite e vinte” (2016), “Barba ensopada de sangue” (2012, vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura”) e “Mãos de Cavalo” (2006), entre outros livros. Escreve ensaios sobre literatura, vídeo games e cultura. “O deus das avencas”, uma coleção de novelas, será publicado em junho pela Companhia das Letras.

Outros episódios:

1º episódio: Vidraça

3º episódio: Placenta

4º episódio: Rapto

5º episódio: Fractal

6º episódio: Clarice

Revisão: Cláudio Leite

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