“Vidraça” | Mutantes, por Daniel Galera, Ep. 1

Quero contar pra vocês uma coisa que me aconteceu.

Começou com uma menina que foi batizada de Justine. Ela nasceu com oito meses, de parto vaginal, de uma mãe que estava inconsciente em um leito de tratamento intensivo, recebendo ventilação mecânica, com pulmões e vasos sanguíneos comprometidos. O pai, num primeiro momento, foi impedido de ver a recém-nascida, e nunca mais viu a companheira, que faleceu horas depois de dar à luz.

Na sala de tratamento intensivo neonatal, a pediatra examinava com espanto a bebê. Como uma larva de peixe, ela era translúcida. Dava para entrever seus globos oculares por trás das pálpebras. Seus órgãos diminutos acenavam através da pele com variedade de cores e texturas, empenhados em atividade visível ou invisível, compactados no molde do corpinho bem formado.

A menina reagiu bem na incubadora. Em poucos dias a pediatra concluiu que a insólita característica epidérmica era a única anormalidade física de Justine. Ela respirava, pulsava, ganhava peso. Apesar de transparente e úmida, sua pele parecia mais resistente que a de um bebê comum.

Quando o pai pôde finalmente ver a filha, a pediatra começou a falar do defeito congênito. Síndrome desconhecida, até onde ela havia apurado, pela literatura médica. Ouvindo as próprias palavras, porém, ela as julgou inadequadas. Quem poderia dizer que a menina tinha um defeito? Não se sabia o que ela tinha.

O pai, arrasado com a perda da companheira, a observou com preocupação, mas também com encanto. “Ela é muito linda”, balbuciava diante da equipe médica. E era mesmo. “Uma vidraça pra alma”, não se conteve uma das enfermeiras. Justine não tinha alma, ninguém tem, mas era, sim, uma espécie de vidraça para as minhas criações e segredos. Linda.

No hospital mobilizado no combate à pandemia, o curioso caso não teve toda a atenção que receberia normalmente. Chegou à imprensa em relatos, mas a aparência e identidade da criança foram preservadas. Assim, Justine pôde crescer com privacidade, amada pelo pai, atendida e estudada ocasionalmente por médicos e cientistas que arriscavam diferentes teses para a mutação.

As décadas em que lhe coube ser jovem foram de constante crise, desequilíbrio e destruição. Mas Justine tinha apetite pelo dia seguinte, pelo conhecimento que, sentia, lhe era devido. Coberta com as roupas e acessórios certos, podia dar passeios ao ar livre, entrar em lugares. Com o passar dos anos, conheceu melhor seu corpo. Só ela sabia que sua pele era capaz de absorver certas coisas. Pólen. Saliva. O pó de alguns metais. Em seu quarto, à noite, tirava fotos de si mesma atravessada pelas luzes de vários tipos de lâmpadas e luminárias.

Justine tinha dezoito anos quando lhe chegaram notícias, pela internet, de que no Norte do país havia uma criatura estranha, uma criança feita de vespas. Talvez, o instinto lhe disse, ela fosse peça de um quebra-cabeças maior. “Pai”, ela disse aquela noite, “preciso viajar”.

Vidraça é o primeiro episódio da série "Mutantes", do escritor Daniel Galera. O autor nasceu em São Paulo e vive em Porto Alegre. Escritor e tradutor, publicou os romances “Meia-noite e vinte” (2016), “Barba ensopada de sangue” (2012, vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura”) e “Mãos de Cavalo” (2006), entre outros livros. Escreve ensaios sobre literatura, video games e cultura. “O deus das avencas”, uma coleção de novelas, será publicado em junho pela Companhia das Letras.

Outros episódios:

2º episódio: Enxame

3º episódio: Placenta

4º episódio: Rapto

5º episódio: Fractal

6º episódio: Clarice

Revisão: Cláudio Leite

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